quinta-feira, 10 de maio de 2012

Contatos Significativos




Um encontro no ponto de ônibus.
Queria o número de telefone do conhecido que há muito tempo não via, mas na hora estava sem celular e caneta para gravá-lo, anotá-lo. Memorizar era uma tarefa árdua. Mas, tentou. O conhecido, apressado, foi embora, mas os número continuavam brincando pela sua cabeça, buscando um local fixo na memória.
Subitamente, lembrou-se de que tinha nas mãos um embrulho com pincéis e dois potinhos de tinta guache, uma verde e outra azul, para a realização de uma tarefa escolar futura.
Abriu o potinho com tinta verde e pintou os números do conhecido no papel de embrulho.
Telefonou-lhe no dia seguinte.
Contatos singificativos.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Socioexpressão


 Obra de Vik Muniz


...Quanto mais falo
Mais tenho a dizer...


Obra de Cândido Portinari

terça-feira, 10 de abril de 2012



"Aprender é descobrir que algo é possível."
(Frederick Perls)

segunda-feira, 26 de março de 2012

O Poema do Semelhante (Elisa Lucinda)

O Deus da parecença
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos.

Foi Ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.

Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante
ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.

Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão
É mundão
todo mundo beija
todo mundo almeja
todo mundo deseja
todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.

O Deus que cuida do
não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa
de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele
em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura
a solidão do medo
a solidão da usura
a solidão da coragem
a solidão da bobagem
a solidão da virtude
a solidão da viagem
a solidão do erro
a solidão do sexo
a solidão do zelo
a solidão do nexo.

O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida
Aparecida
santa
puta
criança
deu de me fazer
diferente
pra que eu provasse
da alegria
de ser igual a toda gente.

Esse Deus deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.
Não fosse a inteligência
da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Cores Reais


"Mas eu vejo suas cores reais
Brilhando por dentro
Eu vejo suas cores reais
E é por isso que eu te amo
Então não tenha medo de deixá-las aparecerem
Suas cores reais
Cores reais são lindas
Como um arco-íris"

(TRUE COLORS, Cyndi Lauper)

obra de Beatriz Milhazes

"Nos dias mais escuros
Visto-me com as minhas roupas mais brilhantes"

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O Terapeuta sem Máscaras


Segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (Ferreira, 2004), “fundamentalismo” é um termo cujo sentido está relacionado à religião, sendo definido como uma observância rigorosa às crenças religiosas tradicionais e/ou antigas, como aquelas dos grupos protestantes dos Estados Unidos, por exemplo, que enfatizam a interpretação literal das escrituras bíblicas.
O conceito de fundamentalismo pode ser utilizado em diversas ciências para dar significado a um conjunto irracional ou exagerado de crenças ou ideias e posições dogmáticas relativas a certas opiniões previamente estabelecidas em relação a algo, originando atitudes, ideais ou objetivos deturpados referentes a uma espécie de “pureza ideológica”, presente nas raízes de atitudes separatistas e manifestações discriminatórias.
A rigidez no retorno de determinados grupos aos valores primordiais que os fundamentam em suas ações pode ser considerada um dos maiores males do mundo atualmente. Tal retomada, muitas vezes, apresenta distorções na forma como esses grupos conduzem determinadas crenças e ações, gerando fanatismo de opiniões, quando são consideradas “incontestáveis”. O fundamentalista crê que seus posicionamentos são soberanos e indiscutíveis, fechando-se à premissa do diálogo e à abertura às novas experiências que, de alguma forma, possam surgir e contribuir na vida de determinado indivíduo ou grupo. As “verdades absolutas” dos fundamentalistas religiosos, por exemplo, calcadas em múltiplos interesses, acabam por justificar diversos conflitos maléficos, como as guerras que há muito tempo ocorrem no Oriente Médio e em diversas outras partes do mundo.
No campo da psicologia – e aqui se discutirá a psicoterapia, em particular – nos deparamos frequentemente com a questão do fundamentalismo dos referenciais teóricos fechados, do psicoterapeuta que se fixa de forma rígida a sua abordagem de tal maneira que impossibilita uma visão mais abrangente e rica do próprio trabalho, inclusive comprometendo os resultados da terapia, pelo simples fato de se recusar a recorrer a fontes de conhecimento provenientes de linhas teóricas diferentes daquela com a qual escolheu trabalhar.
Psicoterapia pode ser definida como uma forma de tratamento psicológico em que são empregados meios mentais - como a persuasão e a sugestão, por exemplo -, visando restabelecer o equilíbrio emocional perturbado de uma pessoa (FERREIRA, 2004). Não se pretende discutir aqui o que seriam esses “meios mentais”, ou as especificidades dos variados tipos de processos psicoterapêuticos, mas problematizar a experiência da psicoterapia como um meio de instrumentalização ou aplicação de um saber constituído a priori, e do qual os profissionais costumam se utilizar de modo muitas vezes restritivo, excluindo as múltiplas possibilidades de se vivenciar o processo terapêutico, independentemente da linha teórica utilizada.
Ampliar determinados pontos de vista com o objetivo de resolver questões de maior complexidade técnica ou de natureza multidisciplinar, no que se refere ao processo psicoterapêutico, revela a existência de oportunidades de crescimento em vários níveis que não deveriam ser ignoradas, considerando que cada nova demanda que surge é única e precisa ser tratada com os recursos teóricos e técnicos que estão disponíveis, além do fato de que nenhuma teoria é capaz de apreender totalmente a transcendente realidade dos fenômenos humanos em sua totalidade e complexidade. Para que mudanças válidas aconteçam no sentido da abertura, os profissionais psi se pautam, obviamente, por atitudes congruentes e pela conduta ética.
Mais do que ser reconhecido como o terapeuta que trabalha com determinada abordagem psicológica, o profissional psi ortodoxo, muitas vezes, acaba por anular-se em sua individualidade e passa a desenvolver uma espécie de “máscara social”, representando um papel estereotipado ou tomando para si toda uma “mitologia” historicamente constituída a partir de algumas assim-chamadas “características marcantes” dos profissionais que compartilham a mesma linha teórica que a sua. Para corresponder à imagem que se espera dele, o terapeuta tende a exagerar gradativamente a expressão dessa máscara por meio de posturas pouco autênticas e de um rigor cada vez maior na aplicação das técnicas terapêuticas de que faz uso, restringindo a sua atuação a meros métodos e conceitos dogmáticos, e adotando permanentemente a máscara, não apenas no ambiente em que exerce as suas atividades profissionais, como também em outros setores de sua vida cotidiana, impossibilitando a visualização nitidamente de seu “verdadeiro rosto”, e impedindo o surgimento de questionamentos relativos ao modo como surgem e acontecem esses modos de atuação chamados de fundamentalistas, pragmáticos e paradigmáticos.
Mudanças de paradigmas são comuns na história da psicologia. Carl Rogers, por exemplo, em seu trabalho dedicado ao desenvolvimento de uma psicoterapia verdadeiramente humanista, contribuiu para a realização de mudanças importantes no que se refere à prática clínica dos psicólogos, principalmente ao ser eleito presidente da Associação Americana de Psicologia, em 1947 (Wood, 1997):
Sua participação nessa instituição marcou um ponto sem volta no reconhecimento que a sociedade norte-americana passou a dedicar ao psicólogo clínico, aceitando-o também como psicoterapeuta. Isto porque, a prática inicial de Rogers no campo do Aconselhamento Psicológico, tornando-o objeto de pesquisa empírica, fortaleceu o reconhecimento de seu trabalho como atinente à psicoterapia, legitimando-a como parte do campo de atuação do psicólogo. Até então, era vedada aos psicólogos a prática da psicoterapia, prerrogativa exclusiva dos médicos psiquiatras.
(WOOD, 1997, p. 1)
Além de nos mostrar que importantes mudanças de paradigmas em psicologia são perfeitamente passíveis de acontecer, Rogers (1977) também nos revela, por meio de uma série de estudos, experimentos e observações que fundamentaram a elaboração da Abordagem Centrada na Pessoa, teoria baseada em sua experiência com a psicoterapia, o seu modo de pensar a respeito do processo terapêutico, nos auxiliando a compreender melhor sobre a responsabilidade do psicoterapeuta, independentemente das linhas teóricas assumidas, sendo que os resultados de seu trabalho dependem, em grande parte, de intervenções e iniciativas eficazes, o que se dá a partir da visão do cliente como um todo e do modo como se estabelece a relação terapêutica em si, ou seja, de um estudo compreensivo dos fenômenos que vão surgindo a cada momento.
Segundo Rogers (1977), nas relações com as pessoas não ajuda agirmos como se não fôssemos quem somos. Um terapeuta é mais eficaz quando pode se ouvir a si próprio, aceitando-se, e quando pode agir com congruência, pois há um valor enorme no fato de se permitir a si mesmo compreender outra pessoa, sendo enriquecedor abrir canais através dos quais os outros possam se comunicar, compartilhar seus sentimentos e sua particular percepção do mundo. Aceitar e estar aberto à realidade própria e a dos outros é importante porque a vida é um processo fluente, que se altera, onde nada está fixado e as verdades não são absolutas.
Desta forma, a atuação do terapeuta não está restrita a um único modo de pensar, a uma abordagem aplicada isoladamente e de modo a preencher todas as lacunas do saber psicológico de que o profissional necessita para exercer o seu trabalho. Estar atento a cada contexto de vida, à situação específica de cada pessoa e aprender com os colegas que trabalham com outras abordagens - e também com os clientes – favorece o crescimento e a conscientização das especificidades do processo terapêutico no momento em que ele está acontecendo, o que dificilmente ocorre quando se utiliza continuamente técnicas cristalizadas, muitas vezes aplicadas fora do contexto adequado e respaldadas em modelos excessivamente restritivos ou rígidos de atuação.
Frederick Perls, o principal criador da Gestalt-terapia, embora mantivesse algumas posturas relativamente intransigentes em relação à Abordagem Gestaltica, costumava emitir opiniões desfavoráveis à rigidez na aplicação de técnicas psicológicas (Kiyan, 2006):
Certa vez, alguns americanos gostaram muito de uma xícara de porcelana vinda da China. Como não era possível fabricá-la em seu país e como tivessem interesse em comercializá-la, embalaram a peça cuidadosamente remetendo-a à China, com a orientação de que fizessem mil peças absolutamente iguais ao modelo. No entanto a asa da xícara quebrou durante a viagem. Ao chegar a encomenda, os americanos tinham mil xícaras sem cabo...
(KIYAN, 2006, p. 180)
Perls, ao contar essa história, referia-se ao método psicanalítico, mas ela também pode fazer referência à própria utilização de técnicas em Gestalt-terapia e, obviamente, a todas as abordagens, quando empregadas de forma “engessada”, o que contribui apenas para limitar a liberdade na atuação do psicoterapeuta, despotencializando o seu trabalho e colaborando para a manutenção de estereótipos profissionais aprisionadores.
Uma fala do psicoterapeuta e diretor de psicodrama argentino Dalmiro M. Bustos (Duclós, 1992) elucida a questão, apontando para as transformações que já vêm ocorrendo no âmbito da psicoterapia há um certo tempo:
Agora o psicoterapeuta é uma pessoa mais próxima, inclusive na psicanálise. E não é só na postura mais próxima, mais humana, mais real, mais completa (...) Também as pessoas não aceitam mais o papel sacerdotal. Seria mais uma mistificação, uma coisa a contestar, porque muitos conhecimentos já foram absorvidos. Isso gerou uma mudança também na atitude dos terapeutas. Antes éramos sacerdotes, agora somos trabalhadores da saúde mental. É uma diferença que eu diria que é mais de gerações [...]
(DUCLÓS, 1992, p. 94-95)
O trecho acima pode nos remeter à concepção de “neutralidade impossível” do processo psicoterapêutico, onde os saberes e influências se entrecruzam devido aos múltiplos elementos que o constituem, fugindo a quaisquer determinações, revelando a necessidade de se empreender articulações teóricas que possam servir como base para o entendimento dos complexos desafios atuais, a partir das “novas” demandas que surgem na contemporaneidade.
Aos estudantes de psicologia e profissionais psi recém-graduados, ou já experientes nessa área, cabe o trabalho de “retirar as máscaras”, exercendo o poder transformador dos modelos profissionais que já não fazem mais tanto sentido ou que não têm valor funcional, embora os estereótipos ainda continuem a perseguir essa classe de trabalhadores, assim como perseguem muitas outras, dando margem a novos meios de enfrentamento dessa questão. Com ética, fundamentação teórica e critérios adequados, é possível criar muita coisa no ambiente terapêutico, principalmente no que diz respeito às novas possibilidades de vivências significativas e de ser/existir no mundo.
A troca de informações e experiências a respeito das novas possibilidades de vivências terapêuticas e a “experimenta-ação” são importantes modos de fortalecimento da união entre os profissionais psi, e todo o saber resultante desse processo precisa ser compartilhado, produzindo debates e análises amplas sobre o assunto, considerando a sua extrema relevância no tocante ao atual contexto histórico e social em que a psicologia está inserida, com o objetivo de proporcionar benefícios para a toda a sociedade, embora o foco esteja no próprio processo como um todo.
Referências:
DUCLÓS, S. M. Quando o Terapeuta é o Protagonista: Encontro com Dalmiro M. Bustos. São Paulo: Ágora, 1992.
FERREIRA, A. B. de H. (autor). Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3. ed. rev. atual. Curitiba: Positivo, 2004.
KIYAN, A. M. M. E a Gestalt Emerge: Vida e Obra e Frederick Perls. 2. ed. São Paulo: Altana, 2006. (Coleção Identidades)
ROGERS, C. R. Tornar-se Pessoa. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1977.
WOOD, J. K. (Org.). Abordagem Centrada na Pessoa. 3. ed. Vitória: EDUFES, 1997.